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Hélder Postiga: «Aprendi a ouvir»
AVANÇADO LEONINO EM ENTREVISTA EXCLUSIVA
RECORD – Quer explicar-nos como aconteceu a transferência para o Sporting?
HÉLDER POSTIGA – O Sporting já tinha tido interesse. Este ano eu era uma aposta não só do treinador como da direcção e tinha a vantagem de estar no último ano de contrato, o que me permitia assinar por qualquer clube em Dezembro. Mas as negociações não foram fáceis. Nunca é fácil negociar entre clubes grandes. Ainda bem que tudo se resolveu. Estou muito feliz. Sair do FC Porto para o Sporting é sair de um grande para outro grande. Era isso que eu pretendia. Por outro lado, desejava mais estabilidade. Tenho 26 anos e posso jogar mais alguns anos ao mais alto nível. O Sporting pode oferecer-me isso tudo. Oferece estabilidade e permite lutar por títulos.

R – Esse namoro antigo de que falou data de quando?
HP – Aconteceu há uns dois anos. Lembro-me que se falou na troca de jogadores, mas o FC Porto nunca equacionou negociar.

R – Este ano chegou a alvitrar-se a hipótese de Vukcevic entrar no negócio…
HP – O que me interessava é que o Sporting resolvesse a questão e tivesse vantagem na contratação. Os contornos do negócio pouco me preocuparam. Sei que existia também o interesse do Panathinaikos e eu nunca – não faz parte do meu feitio – pressionei ninguém para sair ou vender. Deixei andar. Se o FC Porto decidiu negociar, foi porque não estava interessado na minha continuidade.

R – Quando estava com a Selecção em Óbidos já sabia que podia assinar?
HP – Sabia que as negociações com o Sporting não iam ser fáceis e nessa altura jogou-se a final da Taça entre os dois clubes. Nunca seria fácil nessa fase, mas o FC Porto não complicou muito as coisas. Foi bom.

R – Qual é a sensação de ter vindo para um dos maiores rivais do FC Porto?
HP – No início é um pouco estranho. Nunca me imaginei num clube rival, mas aos poucos as coisas vão-se ultrapassando. Está tudo a correr bem, as pessoas tratam-me bem e isso faz com que goste cada vez mais do Sporting.

R – Derlei disse que iria encontrar um balneário e um estilo de trabalho distintos daqueles que tinha no FC Porto. São diferentes em quê?
HP – São questões tão internas e específicas que é difícil explicar. Só vivendo por dentro. Os próprios directores fazem com que a mentalidade seja mais fechada ou mais aberta. Mas a mentalidade de vencer é a mesma.

R – As diferenças podem estar nas cidades, nos adeptos, em todo o envolvimento?
HP – Sim. Lisboa tem dois grandes clubes. No Porto, neste momento, há um e a cidade é do FC Porto. Do Boavista são cada vez menos, porque o clube está numa situação difícil.

R – Este contrato dá-lhe a tranquilidade necessária para relançar a carreira?
HP – Era disso que eu estava à procura. Não queria ser novamente emprestado. Já quando fui para a Grécia, tratou-se de uma situação de recurso. Ninguém gosta de andar a saltar de um sítio para o outro. Este contrato veio no momento certo para ter estabilidade não só a nível profissional como a nível emocional e familiar.

R – Voltou a sentir-se desejado?
HP – Também. É essencial para um jogador sentir-se bem e trabalhar com mais vontade.

R – Octávio, o treinador que o lançou, diz que você sentindo confiança mantém níveis altos e grande estabilidade. Foi essa confiança que veio encontrar?
HP – Sinto-me confiante. Há é momentos em que me retiram a confiança. Com isso é que não é fácil conviver.

R – Quem lhe retirou confiança?
HP – Algumas pessoas. Não digo que não me deixaram crescer, mas não me deram apoio quando mais precisava. Um desses momentos aconteceu na primeira época de Jesualdo Ferreira no FC Porto. A equipa estava a jogar bem e em 1.º lugar e de um momento para o outro fui preterido. Não se pode fazer uma análise por 2 ou 3 jogos e quando pensava que podia melhorar deixei de jogar.

R – Está magoado com Jesualdo Ferreira?
HP – Não sei se foi o Jesualdo a estar por detrás disso, mas é estranho que aconteça ao melhor marcador do campeonato. Caí de repente no esquecimento por não ter feito golos em 3 jogos seguidos.

R – Mourinho foi um dos que lhe retiraram confiança?
HP – Não. Se calhar até me deu confiança. Ajudou-me. Quando um jogador é jovem e tem uma ascensão rápida, sente-se perfeito. Eu pensava que não tinha erros. Não ouvia as pessoas e não corrigia determinados aspectos. Hoje tenho de ser sincero e reconhecer que errei, mas estou mais maduro. Ouço conselhos e sou mais ponderado nas decisões. Com a idade, aprendi a crescer e a ouvir

R – Quer dizer que esse problema está ultrapassado?
HP – Aprende-se com as experiências e essa com o Mourinho foi uma delas. Por outro lado, as pessoas não vivem sempre com o mesmo rótulo. O Hélder com 18 anos não é o mesmo aos 26. Tinha a fama de ser arrogante e vaidoso, mas as pessoas mudam. Hoje sou muito mais calmo. Sou pai e isso ajuda-me a ser mais ponderado nas decisões. Estou diferente.

R – Sente que já não tem a imagem do “menino mimado” e do “bom rebelde”?
HP – Esses foram os rótulos que tive todos estes anos. É complicado mudar uma imagem quando ela está instalada, mas as pessoas tentam melhorar e não podem viver sempre com o mesmo rótulo.

R – Está diferente como jogador, mais solidário com o colectivo?
HP – Quando se joga a alto nível, vai-se aprendendo e tentando guardar os aspectos positivos. Ser solidário é uma forma de estar bem integrado num grupo.

R – Como ponta-de-lança, qual a meta em termos de golos esta época?
HP – Um avançado vive de golos e quantos mais conseguir, melhor para si e para a equipa, mas o principal objectivo este ano é ver o Sporting campeão.

R – Ainda assim, precisou de poucos minutos para marcar...
HP – É bom para quem está a começar e precisa de confiança. Senti uma satisfação enorme.

R – A vontade de se fixar no onze é grande?
HP – Comecei mais tarde e havia uma estrutura definida do ano anterior. Não é fácil entrar no núcleo duro. Cabe-me ganhar espaço com calma. Fui submetido a uma operação. Tenho de pensar no trabalho passo a passo.

R – Partiu em desvantagem?
HP – Não me vou defender com esse argumento. Comecei com limitações, mas sei até onde posso ir.

R – Falando do ataque, sem Liedson, está a entender-se melhor com quem?
HP – Nem sempre temos a percepção lá dentro. Mas é normal que conheça um pouco mais do Derlei e saiba melhor o que pode sair dali.

R – A concorrência está a ser maior do que esperava?
HP – Não. O Sporting tem um plantel de 25 jogadores, quase todos internacionais ou de muita qualidade, o que ajuda o grupo e dificulta a tarefa do treinador. Agora vamos entrar num ciclo em que jogaremos domingo-quarta, com castigos e lesões, e haverá espaço para todos. O importante é estar ao melhor nível quando for chamado á competição.

R – Já estava à espera que Yannick explodisse?
HP – Não é surpresa. Nem ele nem outros. O único do plantel que não conhecia e surpreendeu-me pela positiva foi o Carriço. Dentro de poucos anos será dos melhores centrais do futebol português. O miúdo é bom.

R – Têm boa relação?
HP – Ele jogou no Chipre e diz algumas palavras em grego. É natural que às vezes possa estar na palhaçada com ele [risos].

R – Nos treinos, é descontraído e percebe-se que gosta de trocar “galhardetes” com os companheiros de equipa, como Tonel. Já se sente em casa?
HP – Faz parte da minha maneira de ser. Gosto de deixar as pessoas à-vontade. É saudável. Fui criado assim. Depois, há jogadores com quem temos mais confiança para “pegar”. Como já conhecia o Tonel, porque joguei com ele quando éramos miúdos, tenho mais confiança com ele.

R – Com quem partilha quarto nos estágios?
HP – Varia. Na Academia é com o Caneira.

R – Paulinho já é um aliado e amigo. Ele é peça importante no grupo?
HP – Sim, pelo ambiente e pela alegria que traz para dentro do balneário. Às vezes é importante, porque não acordamos bem dispostos todos os dias.

«Sou leão»

R – O golo de Braga foi especial e dedicou-o ao seu pai. Porquê?
HP – Tinha-lhe dito que ia marcar um golo para lhe oferecer no dia de aniversário. Os meus pais têm sido muito importantes e sou muito próximo deles. Foi uma forma de agradecer os bons e maus momentos que têm passado comigo.

R – Há sportinguistas lá em casa?
HP – Tenho um irmão que é um troca-tintas. Ele cresceu e eu pertencia às camadas jovens do FC Porto. Agora que estou no Sporting, já é sportinguista.

R – É verdade que você era benfiquista em pequeno?
HP – Numa família de benfiquistas, é normal que tenha seguido os passos. Depois, fui muito novo para o FC Porto e aprendi a gostar do FC Porto. Mas o meu clube de sempre é o Varzim, é o único de que sou sócio. Neste momento, sou do Sporting e do Varzim. Gosto mais do Sporting a cada dia que passa.

R – Já se sente sportinguista?
HP – Sou leão. E sou de signo Leão.

R – Que opinião tem de Filipe Soares Franco, Miguel Ribeiro Teles e Pedro Barbosa?
HP – Soares Franco está sempre presente, nos bons e nos maus momentos, e considero isso importante. Não se deve aparecer só ou quando a equipa está mal ou quando está bem. O mesmo acontece com Ribeiro Teles e Pedro Barbosa. Também estão sempre presentes e têm uma ligação muito forte ao balneário e aos jogadores.

R – Em Braga, comemorou o golo com Pedro Barbosa…
HP – É uma pessoa de quem eu me sinto próximo. Tenho uma relação próxima com ele. Foi importante na minha vinda para o Sporting. Foi o primeiro a falar comigo sobre essa hipótese.

R – Depois de 2 meses e meio de trabalho com Paulo Bento, que impressão tem do treinador?
HP – É uma pessoa muito directa, que tem os seus métodos de trabalho e é muito frontal naquilo que pensa e quer. E isso é uma base para se ter sucesso. Ele fez questão de estar na minha apresentação. A atitude, não só dele como de outros, foi importante. Senti que fizeram um esforço porque queriam estar presentes. E quando se chega a um clube é importante conhecer as pessoas e sentirmo-nos integrados.

R – Como acompanhou o caso espoletado pelo facto de João Moutinho ter dito que pretendia abandonar o Sporting?
HP – Se ele afirmou isso, se era o que ele pensava no momento, depois também já disse o contrário, ou seja, que está de alma e coração no Sporting. Devemos pedir responsabilidade ao jogador, mas ao mesmo tempo pensar nele. Foi um acto que não aconteceu no timing certo, mas já está tudo sanado.

R – Caneira disse que esse episódio abalou o balneário. Também sentiu isso?
HP – Quando surgem situações dessas, é normal que sejam comentadas. Nem que se ouça falar baixinho, acaba-se por pensar: “De certeza que está a falar daquilo”. Percebe-se sempre um burburinho. No futebol, é normal sentirem-se … vibrações [risos].

R – Acha que era possível um capitão do FC Porto ter a mesma atitude?
HP – Não quero responder a essa pergunta.

R – Quem geriu melhor as situações: o Sporting, com Moutinho, ou o FC Porto, com Quaresma?
HP – Geriu melhor o Sporting, porque ficou com Moutinho.

R – Detendo-nos no Sporting, como classifica o balneário e o ambiente no grupo?
HP – Tem sido fantástico. O balneário quando se ganha é sempre fantástico [risos]. Mas é essa a minha impressão. Há uma mescla de jogadores mais experientes com jovens formados na Academia. O segredo de um grupo é encontrar jogadores que tenham o mesmo objectivo e remem para o mesmo sítio. No Sporting, o que encontro é isso. As pessoas querem todas o mesmo objectivo, querem ter sucesso, querem que o Sporting seja campeão. É dos melhores da minha carreira. Na época da vitória na Taça UEFA, no FC Porto, também tínhamos um balneário fantástico. O que vim encontrar aqui faz-me lembrar um pouco do espírito que vivíamos no FC Porto.

R – Pela negativa, o jogo de Madrid foi o primeiro grande teste ao balneário?
HP – É uma lição para todos. Para quem jogou e para quem não jogou. Estávamos galvanizados e quando as coisas correm bem é normal que se encha um pouco mais o peito. Mas isso fez-nos cair na realidade e pensar que se calhar não somos tão bons e também cometemos erros. Estas derrotas ajudam-nos a crescer. Até podemos pensar que estamos bem e que vai ser difícil ganhar-nos, mas se não entrarmos com seriedade, se não tivermos vontade de vencer, é natural que haja mais desaires desses.

R – Madrid pretendia antecipar os ciclos de 2 jogos por semana e o primeiro começa em Barcelona; na Liga, seguem-se Belenenses, Benfica e FC Porto. A equipa está preparada?
HP – É um ciclo difícil mas bom. Complicado porque vai colocar-nos à prova e exigir do grupo uma mentalidade forte. Bom porque, sem tirar valor aos restantes, os jogos da Champions e os dérbis são aqueles em que todos gostam de participar.

R – Estes jogos com o Barcelona e o Benfica podem ser decisivos no sentido de embalar a equipa para uma época muito boa?
HP – Não se pode resumir uma época de 50 jogos a 2. Não se pode fazer esse tipo de juízos ou avaliações em Setembro. Eu acredito que os adversários partilhem do pensamento que o Sporting está forte, porque têmo-lo demonstrado em campo. Não é só de boca, como dizem alguns; estamos fortes. Mas não vamos resolver a época em 2 jogos.

R – Deixou perceber que o Sporting, por ter conquistado a Supertaça, era o mais forte candidato ao título. É assim?
HP – Não é o mais forte. Os candidatos são três. O que me perguntaram foi se o Sporting era um sério candidato. Ora, se o campeão foi o FC Porto e se nós ganhámos ao campeão na Supertaça, parece-me que temos um pouco mais de percentagem…

R – Pela sua experiência, o que é preciso para se ser campeão?
HP – Como disse, é importante ter bom balneário. Não é fácil ter um grupo de 20 e tal jogadores, onde há 11 felizes, 7 mais ou menos e o resto está com azia. É complicado. Saber gerir um grupo não é assim tão fácil e isso faz com que um dos ingredientes para o título seja esse. Depois, há que ganhar jogos e ter estabilidade durante o campeonato.

R – Qual é o adversário que mais teme, Benfica ou FC Porto?
HP – Por vezes somos nós próprios o nosso pior adversário, porque temos de lutar contra as nossas adversidades. Estão os dois muito fortes, mas quando menos esperamos o perigo está lá e perdemos pontos contra quem não imaginávamos.
Autor: JOÃO PEDRO ABECASIS e VÍTOR ALMEIDA GONÇALVES
Data: Sábado, 13 Setembro de 2008 - 20:04
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COMENTÁRIOS
Sábado, 13 Setembro
• 21:55 - garrido jeremias
Oh Nuno Sporting....Que parvoice!

• 21:43 - BRUNO PORTISTA
liga record , inscrevam-se na liga dos gajos mais bonitos , codigo de registo : A1C81

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