RECORD - Logo após o último revés numa assembleia geral, Filipe Soares Franco admitiu que o grande problema do seu projeto era de comunicação. Este handicap foi ultrapassado até ao ponto de conseguir fazer passar a reestruturação agora proposta?
NOBRE GUEDES - Parcialmente. O modelo que nós propusemos não teve, até hoje, por parte de ninguém, uma alternativa. A única coisa que teve foi contestação do não pelo não, sem explicar por que não. Esta reestruturação foi parcialmente aprovada em maio do ano passado: aprovada a passagem da Academia para o Sporting e aprovada a emissão de VMOC (Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis). O que não foi aprovado foi a compra da Sporting Comércio e Serviços. Sentimos que a principal razão para não ter sido aprovada na totalidade tinha a ver com o facto de o Sporting perder a maioria do capital da SAD. E, por isso, reformulámos o plano para ultrapassar esse óbice.
R - Como?
NG - Reduzindo a emissão de VMOC (ia até 60 milhões e agora vai até 55 milhões), e introduzido na SAD mais um ativo, com o único objetivo de, assim, todos os benefícios continuarem no plano mas o Sporting manter a maioria [do capital] da SAD, além de que continua, obviamente, a ter as ações de classe A, as mais importantes, porque nomeiam o conselho de administração e têm direito de veto nas alterações de estatutos e aumentos de capital, por exemplo.
R - Para o sócio comum entender, como se pode resumir essa alteração ao plano de reestruturação, de que foi um dos artífices?
NG - Não é muito fácil explicar a um leigo. O que se fez foi aumentar [o capital d]a SAD. No Sporting há o clube, com todas as modalidades, e o futebol, este dentro de uma Sociedade Anónima Desportiva. Na construção do estádio, o Sporting decidiu manter esse imobilizado dentro do clube e ter só a exploração do futebol na SAD, que é, aliás, a situação atual. Para aumentar a sua participação na SAD, a ideia é que todos os ativos direta ou indiretamente ligados ao futebol - direitos de superfície do estádio, a Academia e os direitos de TV - passem a fazer parte da SAD. Isso permite-lhe emitir obrigações convertíveis em ações [VMOC] para ter essa parte do capital.
R - Operação que a oposição contesta...
NG - No fundo, a emissão das VMOC é uma venda de parte do capital da SAD. O Sporting tem mais de 70 por cento do capital da SAD, coisa que nem o FC Porto (40%) nem o Benfica (50%) têm. O Sporting tem quase 80 por cento. Pode alienar parte e continuar com 50 por cento. Faz um encaixe financeiro. Ao receber ativos, recebe passivos. Com o encaixe liquida-os.
R - Mas fica sem esse património no clube...
NG - Sim. Fica na SAD, sobre a qual o clube detém mais de 50 por cento das ações.
R - Não há perigo de os perder?
NG - Não. Essa foi a razão para esta alteração.
R - Como é que se garante isso?
NG - Com a entrada dos ativos, automaticamente fica conseguida.
R - E se o Sporting entrar em incumprimento?
NG - Isso, com maioria ou sem maioria... Em 2005, quando foi feita a reestruturação do passivo, no tempo do dr. Dias da Cunha, o Sporting obrigou-se a cross-default. Se o clube tiver um problema, a SAD responde; se a SAD tiver um problema, o clube tem de responder. Desde 2005 que as sociedades são responsáveis umas pelas outras. Ou seja, todo o património já responde por situações de incumprimento. Não há alterações.
R - Ou seja, Dias da Cunha e os seus apoiantes não têm razão para duvidar e nem como hipótese académica os receios deles fazem sentido...
NG - Exato. Não têm a mínima razão. Negociámos uma situação existente e nenhum banco prescindiria de uma garantia só por aparecerem outros senhores [o elenco de Soares Franco] a negociar.
R - Mas, usando a terminologia de Dias da Cunha, com esta transferência de património o clube fica "cadavérico"...
NG - Essa afirmação é absolutamente patética. O clube hoje tem 70 por cento de uma SAD que tem 30 milhões de capital; ficará com 50 por centro de uma sociedade que terá 130 milhões de capital. Não sei o que quer dizer cadavérico.
R - Vai haver dispersão de capital por outros sócios institucionais?
NG - Vai. O Sporting tem 21 milhões de ações, representando 68,6 por cento do capital. Começará por fazer uma redução do capital alterando o valor nominal das ações. Mantém, assim, a sua posição. Depois faz um aumento de capital de 20 milhões de euros, totalmente subscrito ou não, é indiferente, isto porque é aberto a todos os acionistas. O dinheiro que não for gasto aqui servirá para comprar VMOC ao mesmo preço, pelo que a posição acionista não muda. A seguir faz uma emissão de 55 milhões de VMOC. Este processo de conversão demora 5 anos, mas permitirá de imediato à SAD ter uma situação líquida positiva. Depois há a operação da entrada da Academia, em que o Sporting faz um aumento de capital de 15 milhões, e a fusão com a sociedade que detém os direitos de superfície do estádio (não o estádio), onde faz outro encaixe de 12,5 milhões. O Sporting ficará, então, com 50,1 por cento da SAD. Mas digo mais: no dia em que os sócios do Sporting quiserem perceber que não é preciso terem 50 por cento do capital da SAD para terem o controlo, haverá condições para o Sporting se financiar ainda mais.
R - O objetivo principal é abater o passivo...
NG - Tendo um passivo de 200 e tal milhões e não tendo mais do 2 ou 3 milhões para pagar, percebe-se a necessidade de baixar artificialmente esse passivo. Daí a emissão das VMOC. O Sporting não tem capacidade de amortizar aquilo a que anteriormente se havia comprometido. Dizer que tem é demagogia, o que sempre foi feito dentro desta casa. Foi preciso enfrentar o banco e dizer: "Não tenho capacidade para pagar mais do que está aqui". O banco aceitou o nosso plano que, grosso modo, significa que, em vez de pagar ao banco, invista o dinheiro na sua equipa de futebol. A única obrigação é que as modalidades amadoras não tenham défice, o que já acontecia também no tempo do dr. Dias da Cunha. Nós temos algum. Controlado, mas temos. Baixando o passivo para 155 milhões, já a partir deste ano, a situação líquida começa a ser cada vez menos negativa. Vem de 128 milhões e estará, neste momento, entre os 98 milhões e os 100 milhões. A amortização terá de ser feita mas... lá para a estratosfera.
R - Quanto custará a operação ao Sporting?
NG - Cerca de 3 milhões de euros. É barato.
R - E as taxas de juro?
NG - Nem vou dizer, para não ofender.
«Impossível explicar a Dias da Cunha»
R - É difícil explicar esta operação aos sócios. Mas também é difícil explicar ao dr. Dias da Cunha?
NG - É impossível. Eu tentei.
R - Qual é o atrativo para um investidor se, no final, as ações são obrigatoriamente convertíveis em capital mas não será possível ter a maioria desse capital?
NG - Isso pergunte ao banco. Isso está tomado firme pela banca.
R - Empresarialmente faz sentido um clube não ter a maioria de uma SAD...
NG - Claro que sim. Mas se formos obrigados a reformular o plano para garantir os 50 por cento... Tomara a mim ter 20 por cento apenas. Mas é inevitável que venha a ser assim. Em Congresso, foi aprovada uma recomendação que admite a perda da maioria do capital da SAD. Este primeiro passo teve o fito de diminuir o passivo. É cedo para uma segunda fase, embora ache que esse é o caminho.