O futebol evoluiu muito no plano tático nos últimos 20 anos e aquele que era o sistema tático base para todas as equipas deixou de ser utilizado em detrimento de diversas variantes.

Se antigamente, quase todos jogavam em 4x4x2 hoje em dia Jorge Jesus e Alex Ferguson são “notícia” por serem os únicos (entre as equipas dos campeonatos da elite europeia) a utilizar esse sistema tal qual ele foi idealizado: linha de quatro defesas, dois médios-centro sendo que um assume funções mais defensivas enquanto o outro assume mais os momentos de transição, dois extremos bem abertos nos flancos com profundidade ofensiva a utilizar muito pouco os movimentos interiores e dois avançados, sendo que assume um posicionamento mais fixo, enquanto outro tem mais liberdade para procurar espaços entre a linha defensiva e de meio-campo do adversário. Com diversas variações táticas, é certo, mas é este o sistema mais utilizado por Benfica e Manchester United esta época.

Semelhanças dos diabos

Se no caso de Ferguson este é um sistema com 26 anos, na Luz foram as características dos jogadores a “obrigarem” Jesus a optar por este modelo. Sem Aimar a Carlos Martins, o técnico benfiquista voltou a apostar em dois avançados, uma opção que lhe agrada, aliás. As semelhanças entre as duas equipas são dos diabos, vermelhos neste caso. Maxi e Melgarejo são dois laterais de grande propensão ofensiva tal como Rafael e Evra. Matic e Carrick são mais posicionais no meio-campo (embora o sérvio dê mais amplitude de jogo à equipa), e Enzo está habituado a pisar zonas de ataque, tal como Scholes. Nas alas, Salvio e Valencia são as setas na direita, enquanto na esquerda Ola John é ambidestro tal como Young.

As coincidências verificam-se também no ataque, pese embora a disponibilidade de Rooney ao jogo seja inimitável quer por Lima quer por qualquer outro. No entanto, os dois avançados recuados partem da mesma zona de ação, ou seja, ligeiramente descaídos para a esquerda nas costas do ponta-de-lança de modo a poderem aplicar o remate de meia distância em movimentos diagonais. Por fim, o ponta-de-lança é canhoto , característica comum a Cardozo e Robin van Persie, ambos marcadores de livres.

Variações

Apesar das semelhanças, Jesus utiliza mais variantes que Ferguson. No recente jogo com o Olhanense, por exemplo, e tendo em conta os jogadores que tinha disponíveis optou pelo 4x2x3x1 com Gaitán nas costas de Rodrigo. Em situações de desvantagem no marcador, o Benfica muda muitas vezes para um 4x1x1x4 de risco total.

Camacho fixou o 4x2x3x1 na Luz durante anos

• A chegada de José Antonio Camacho ao Benfica em 2002 implementou um sistema tático que viria a perdurar durante anos. O espanhol optou pelo 4x2x3x1, tentando rentabilizar o facto de contar com Zahovic e dispor de poucas opções para a função de ponta-de-lança. Este sistema viria a ser utilizado por Giovanni Trapattoni e também por Ronald Koeman que falava num 4x3x3 tipicamente holandês embora os extremos nunca atuassem na linha do ponta-de-lança. Com Fernando Santos, o sistema mudou para o 4x4x2 losango, passando os encarnados a jogarem com dois pontas-de-lança e coabitando médios como Katsouranis, Karagounis e Simão. Neste meio-campo, só um jogador assumia funções exclusivamente defensivas o que tornava o ataque benfiquista num verdadeiro carrossel. À chegada de Quique em 2008 coincidiu a chegada de Pablo Aimar e os encarnados voltaram ao 4x2x3x1 embora o técnico espanhol tivesse chegado a utilizar o argentino como avançado puro. Com Jesus voltou o 4x4x2 e o 4x1x3x2.

Regressa a opção dos 3 centrais

O futebol italiano tem a fama de ser o mais exigente do ponto de vista tático e a época passada ficou marcada pelo regresso do sucesso do sistema de 3 centrais, tão tipicamente transalpino. Antonio Conte levou a Juventus ao título com este sistema, imitando aquilo que Fabio Capello já havia feito em 2001, numa altura em que tinha laterais como Cafu e Candela que faziam todo o corredor.

O Nápoles de Walter Mazzarri também tem tido sucesso com este modelo e esta época o jovem técnico do Inter Milão, Andrea Stramaccioni tenta dar luta à Juventus também a jogar com este modelo, sem paralelo nos restantes campeonatos europeus. Por cá, só Co Adriaanse – e com sucesso já que chegou ao título de campeão – adotou os três centrais, não existindo mais seguidores.

Jesus só usa para “segurar”. NoBenfica, houve tentativas esporádicos de usar este modelo, nomeadamente no início do século com Jupp Heynckes e até José Mourinho. Também Manuel José já o havia tentado, imitando aquilo que fazia no Boavista no início da década de 90, mas nenhum conseguiu implementar este sistema tático.

Mais tarde, Ronald Koeman até chegou a utilizar algumas vezes 4 centrais, mas não por opção e sim devido às limitações que o levavam a adaptar Alcides e Ricardo Rocha às laterais como foi o caso do jogo com o Lille para a Liga dos Campeões. No que diz respeito a Jorge Jesus, não é um adepto deste modelo e só em situações de vantagem no marcador e em que sabe que o adversário irá usar jogo direto coloca o terceiro central em campo.


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