A história da Volta a Espanha tem sido marcada pela ambição de ultrapassar a Volta a Itália como segunda Grande Volta (GV), a seguir à indisputada rainha, a Volta a França.
O Giro deteve a vice-liderança até finais do século passado, mas a transição organizativa dos Correios espanhóis para a Unipublic tornou a corrida ibérica num sério rival para a prova italiana em termos de atração das principais estrelas, que cada vez mais optam por disputar apenas duas das três GV. Mas não foi apenas em termos organizativos que a prova marcou pontos. O "boom" do desporto espanhol (a acompanhar o indiscutível salto sócio-económico) também contribuiu para a melhoria qualitativa.
Primeiro passos
A primeira das 63 edições até agora disputadas ocorreu em 1935, com 14 etapas e triunfo do belga Gustaaf Deloor, que também dominou no ano seguinte. Mas a Guerra Civil ditou um longo interregno, que só terminou em 1941, ano em que realizou o primeiro contrarrelógio.
Entre 1950 e 55, novo interregno, devido a dificuldades organizativas. O diário "Ya" não conseguiu arcar com as responsabilidades, que acabaram por ser assumidas pelos Correios de Espanha e pelo "Pueblo Vasco", uma parceria que duraria até 1979.
Melhoria qualitativa e... terrorismo
A partir da década de 60, a prova dá um salto qualitativo sensível, especialmente com o alargamento da participação internacional - até aí, o pelotão era quase exclusivamente formado por corredorres espanhóis. Em 1973, Eddy Merckx ganha após um duelo empolgante com Luis Ocaña, reeditando os duelos das estradas francesas e colocando a prova no "mapa" das grandes estrelas da modalidade.
Mas a melhoria acabou por não ser devidamente sustentada devido a um dos maiores problemas da sociedade espanhola, o terrorismo. Em 1968, um atentado obrigou a anulação de uma etapa, embora não se tenham registado vítimas mortais. Dez anos depois, repetiu-se a situação, ditando, então, o cancelamento da derradeira tirada.
Televisão e publicidade
A Vuelta com uma organização moderna nasce apenas em 1980, com a entrada da Unipublic, que incrementa o peso da publicidade e dos patrocínios e consegue que a prova entre no roteiro das transmissões televisivas. Com o crescimento, surgiu também o fenómeno do doping, com Ángel Arroyo a perder o triunfo de 1982 devido a uma análise antidoping positiva.
No ano seguinte, dá-se a primeira chegada aos Lagos de Covadonga, subida que, desde então, faz parte da mitologia da competição. Nesta mesma edição, o triunfo final foi para Bernard Hinault, um dos pentavencedores do Tour. A partir daqui, o duelo pelos triunfos começou a ser dirimido entre os espanhóis - Pedro Delgado era a estrela em ascensão - e os colombianos - representados pelo super-trepador Lucho Herrera.
A década de 90 abriu o período de domínio dos suíços, com Tony Rominger - ainda hoje, uma das caras da Vuelta - a somar três sucessos consecutivos, dando depois lugar ao compatriota Alex Zulle, vencedor em duas ocasiões. Em 99, é o alemão Jan Ullrich, vencedor do Tour 97, a conquistar o seu único triunfo.
Por fim, a década de 2000 trouxe mais vitórias espanholas, apesar de uma delas ter sido retirada. Roberto Heras (na foto) foi o personagem principal deste enredo, quando conquistou a sua quarta vitória em Espanha (2005), algo que seria um recorde. O título foi-lhe retirado devido a doping e Heras teve de se contentar com os três troféus que detinha, das vitórias de 2000, 2003 e 2004. Desta forma, o antigo ciclista espanhol reparte com Tony Rominger o título de mais vencedor em Vueltas.
Curto e rápido
Por esta altura, a organização decide apostar num novo conceito, que visa aumentar o espectáculo: etapas mais curtas e, por isso, mais velozes. Também foi lançada uma nova subida, o Angliru, que passou a integrar o panteão das montanhas mais complicadas do ciclismo contemporâneo. Com percentagens máximas de inclinação de 24%, o antigo caminho de cabras asfaltado para integrar a competição fixou um novo standard de exigência.
Alberto Contador ganhou em 2008, conquistando a Grande Volta que lhe faltava, depois de já se ter conseguido impor no Giro e no Tour. Na última edição, novo triunfo espanhol, desta feita de Alejandro Valverde, que mais tarde viria a a ser suspenso por envolvimento na "Operação Puerto". Ainda assim, o corredor da Caisse d'Epargne manteve o seu título, visto que os efeitos suspensivos apenas tiveram início em janeiro de 2010.